domingo, 5 de setembro de 2010

O fotoclubismo e a importância do Foto Cine Clube Bandeirante

Foto da fundação: 28 de abril de 1939 (Acervo Biblioteca FCCB)

Primeiro salão, em 1942

Excursão para Guararema, 1939

Excursão para o Rio de Janeiro, década de 40


Enquanto nos outros países já se contavam com muitas sociedades fotográficas, (Royal Photographic Soc., Londres,1853, Societé Française De Photographie, Paris,1854, Societá Fotográfica Subalpina, de Turim,1889), aqui no Brasil, os primeiros fotoclubes surgiram no início do século XX, mas foi a partir dos anos 30 que passaram a ter papel de destaque na formação e no aperfeiçoamento técnico dos fotógrafos brasileiros. O primeiro de que se tem notícia é o Photo Club Hélios, em Porto Alegre, em 1918.Os principais, porém, foram o Photo Club Brasileiro, no Rio de Janeiro, em 1923, e o Foto Cine Clube Bandeirante, em São Paulo, cuja atuação foi fundamental para o desenvolvimento da fotografia de autor no país. O Bandeirante foi fundado em 1939, nas dependências do edifício Martinelli, São Paulo. Em 1945, mudou seu nome para Foto Cine Clube Bandeirante por seus trabalhos na área cinematográfica. O movimento Fotoclubista teve seu apogeu nas décadas de 40/60, com diversas manifestações.
A idéia da fundação do FCCB surgiu numa loja de artigos fotográficos, a Photo-Dominadora, de Antônio Gomes de Oliveira e Lourival Bastos Cordeiro, também praticantes da fotografia. A loja era palco freqüente de discussões acerca de equipamentos e materiais fotográficos e de trocas de experiências entre fotógrafos e amadores. (Anteriormente, em 1926, já havia ocorrido uma primeira tentativa de se formar um clube fotográfico em São Paulo, a Sociedade Paulista de Photographia que não deu certo, mas chegou a editar uma revista de boa qualidade, a Sombras e Luzes. Acabou em 1929, logo depois de sua primeira exposição pública).
Um dos freqüentadores da Photo-Dominadora era José Medina, que pelas ondas da P.R.K.9 – Radio Difusora, mantinha um programa diário sobre fotografia – “Instantâneos no Ar” – no qual dava conselhos, anunciava as novidades, comentava as fotos enviadas por ouvintes e promovia concursos.Nas reuniões vespertinas na “loja do Gomes”, os aficionados mostravam e discutiam suas fotos e experiências, as câmaras, objetivas etc. Não se sabe exatamente de quem partiu a idéia de fundar um foto-clube. Abriram-se listas de adesões e ao atingir o número considerado mínimo necessário – 50 aderentes – convocou-se a Assembléia Geral de Fundação para a noite de 28/04/1939, no salão do Portugal Clube, no Edifício Martinelli.
Participaram da Assembléia 32 membros do clube, que assinaram a ata de fundação: Antônio Gomes de Oliveira, José Donatti, Eugênio Fonseca Filho, Benedito Junqueira Duarte, José V. E. Yalenti, Alfredo Penteado Filho, Waldomiro Moretti, Luiz F. Lima, Victor Caccurri Jr., José Medina, Lourival Bastos Cordeiro, Jorge Backer, Eduardo de S. Thiago, Júlio S. Toledo, Joaquim R. Borges, Simon Kessel, José Louzada F. Amargo, Jorge Siqueira Silva, Francisco B. M. Ferreira, Edgar Flacquer, Antonio Ferrero, José A. Vergareche, João A. Giuzio, Mário Caccurri, Aldo Dacomo, Dyano Castanho, José M. Francisco, Waldomiro Ract, Gelmindo Poltronieri e Jorge Bittar. A sugestão do nome ficou por conta de José Donatti, alusão aos desbravadores do Brasil.
O clube iniciou suas atividades, instalando sua sede, em três salas alugadas no 22º andar do Edifício Martinelli, por 700$000 (setecentos mil réis) mensais. Para primeiro presidente do Clube, elegeu-se Alfredo Penteado Filho. A primeira excursão fotográfica do Clube aconteceu em 09/07/1939, em Guararema. Logo depois, com as fotografias obtidas neste passeio, foi realizado o primeiro concurso interno, cujo vencedor foi Randolfo Homem de Mello. Foram vencedores desse primeiro concurso: 1º lugar, Randolfo Homem de Mello (Pereiras); 2º lugar, Lourival Bastos Cordeiro (Faina Diária) e em 3º lugar, José V. E. Yalenti (Outono).
Com a Segunda Guerra Mundial, o material fotográfico não chegava às prateleiras do Bandeirante, já que havia grandes restrições à importação e a prática da fotografia foi proibida em diversos lugares. Para resistir, o foto cine clube transferiu sua sede para um lugar menor, duas pequenas salas na Rua São Bento, 357 – 1º andar, prédio em cujo pavimento térreo estava a loja Fotótica. A realização do primeiro salão de fotografia foi uma saída para escapar da crise provocada pela guerra e, ao mesmo tempo, chamar a atenção da imprensa e dos interessados na arte. Em 3 de outubro de 1942 aconteceu, assim, o Primeiro Salão Paulista de Arte Fotográfica.
A exposição foi feita “Salão Almeida Júnior”, da Galeria Prestes Maia, no Viaduto do Chá, e teve o apoio da Prefeitura do Município de São Paulo, que colaborou com a impressão do catálogo. Apesar do nome, a mostra teve âmbito nacional e também fizeram parte dela, pela primeira vez no país, fotografias de estrangeiros, em uma seção chamada “Boa Vizinhança”. Essas fotos, que estavam fora de concurso, eram de convidados argentinos, dos Foto Clubes de Concórdia e de Rosário. Esse primeiro salão serviu para reafirmar o nome do Foto Clube, pois teve uma ótima repercussão na imprensa.
No fim daquele ano foi eleito para a presidência Eduardo Salvatore, cuja gestão teve início em janeiro de 1943. Salvatore incentivou as atividades internas e a participação dos membros do clube nos Salões Internacionais, que renderam diversos prêmios aos “bandeirantes”. No Segundo Salão, em novembro de 1943, uma novidade: pela primeira vez, abriu-se um lugar para os fotógrafos da imprensa, filiados da Associação Paulista de Imprensa. Estes fotógrafos puderam mostrar seus trabalhos no “Estande Dr. José Maria Lisboa”. Em novembro de 1944 ocorreu o 3º Salão, já de âmbito internacional, com oito países participantes, entre eles os Estados Unidos e a Inglaterra. Daí em diante, o Salão seria sempre internacional. Em 1945, com a entrada de um grupo de cineastas amadores, criou-se o Departamento de Cinema, com a direção de Jean Jurre Roos. O clube mudou seu nome para Foto Cine Clube Bandeirante, e teve que pensar em mudar de sede, já que a antiga ficou pequena. Assim, em 1949 ocorre a mudança para sede própria. Isto propiciou a criação dos primeiros cursos de fotografia e cinema do país.
O FCCB trouxe novas concepções para a fotografia artística brasileira, sendo equiparado aos grandes grupos fotográficos renovadores de outros países como o “Fotoform”, na Alemanha; o “Bussola”, na Itália; o “Grupo Dos Xv”, na França; o “La Ventana”, no México.Até então ainda prevaleciam os conceitos clássicos e os processos denominados “artísticos”, como o bromóleo, goma-bicromatada, carbro etc. Era o “pictorialismo”, grandemente influenciado pela pintura acadêmica: as paisagens em meio tons, suaves; a natureza morta; os retratos de “velhos barbudos” que tinha seu grande arauto na “Photographic Societ of América – PSA” e no Brasil, o Foto Clube Brasileiro, com João Nogueira Borges, Herminia Nogueira Borges, Guerra Duval, Djalma Gaudio, Jayme H. Távora, Bellini de Andrade e outros. Em São Paulo, no Bandeirante, eram expoentes dessa “escola”, entre outros, Valencio de Barros, Heitor de Assis Pacheco, Carlos Quirino Simões, Ismael Alberto de Souza, Guilherme Malfatti, Waldomiro Moretti, Domingos Busnelli, Claudio Pugliesi, Henri E. Laurent, Plinio S. Mendes.
O “Pictorialismo” fotográfico prevaleceu nos dois primeiros salões. Mas, a partir do terceiro, em 1943, mais precisamente a partir de 1945 e nas décadas de 50/60, instigados por Yalente, Salvatore e Benedito J. Duarte, os bandeirantes se lançaram à experimentação renovadora e modernizadora. A pesquisa, o estudo e o aproveitamento dos efeitos de luz, desde a luz lateral, os seus contrastes e o contraluz total, levaram a uma sintetização e simplificação cada vez mais acentuada das linhas e formas geométricas. É a fase da “fotografia arquitetônica” (José Yalenti, Thomaz Farkas, Benedito Junqueira Duarte, Gertudes Altschull, Eduardo Salvatore e Chico Albuquerque) explorando as linhas, os planos, os detalhes dos modernos edifícios e que, através de processos como o “alto contraste”, a “solarização” e o uso do papel brilhante (antes banido das exposições fotográficas) logo evoluiu.
Veio depois o “abstracionismo”, o “concretismo” o “grafismo”, com Marcel Giró, Geraldo de Barros, Rubens Teixeira Scavone, Ademar Manarini, Willian Brigato, Emil Issa, entre outros. De outro lado, despontou o “surrealismo” com Roberto Yoshida (o mestre do “table-top” e da fotomontagem), German Lorca, Moacir Moreira, Alfio Trovato e também Gertudes Altschull (perita na “separação de tons” e na solarização).A fotografia “subjetiva” e o “neo-realismo” tiveram vez com Ivo Ferreira da Silva, Dulce Carneiro, Jacob Polacow, Kazuo Kahawara, M. Laert Dias, Camilo Joan, Nelson Peterlini.O “movimento” destacou-se nas imagens de Raul Chama, Arnaldo Machado Florence e João B. Nave Filho. O retrato e a figura humana ganhou conotações “expressionistas” com Aldo de Souza Lima, Tufy Kanji, Raul Eitelberg.As cenas e os personagens anônimos da grande cidade tiveram seus intérpretes nos flagrantes de Júlio Agostinelli, Eduardo Ayrosa, Antônio Da Silva Victor, João Minharro.A própria paisagem e a natureza morta ganharam novos enfoques com Carlos Comelli, Ludovico Mungioli, Luis Vaccari, Takashi Kumagai, José Galdão, Gaspar Gasparian.E Herros Cappello revolucionou a fotografia em cores com processos próprios e originais, alterando a seu bel prazer as cores originais dos objetos, solarizando os negativos em cores e fazendo fotografia colorida partindo de negativos branco e preto, numa primazia mundial.
Foram os anos da grande ruptura na fotografia nacional, que buscou novas formas de expressão e uma linguagem mais específica para a fotografia, provocando até a conversão de renitentes acadêmicos como por exemplo, José Oiticica Filho, até então o artista-fotógrafo brasileiro mais premiado em certames fotográficos no país e no estrangeiro. Com suas “recriações”, Oiticica veio engrossar a corrente abstracionista e concretista que teve o seu ápice em 1965, quando o Foto Cine Clube Bandeirante obteve da VIII Bienal de Arte Moderna a criação de uma sala especialmente dedicada à fotografia.Todos esses “ismos” e os que os sucederam como o “supra-realismo”, a “arte-pop” etc, encontraram guarda e duelaram no Bandeirante através dos seus concursos internos, seminários, salões, artigos na revista Foto-Cine, o que fez dele o grande foro de debates da fotografia brasileira no período.
Também no setor de cinema o clube revelou grandes cineastas, entre eles, Benedito J. Duarte que se tornaria um nome internacional no documentário médico-científico; Geraldo Junqueira de Oliveira, Thomaz J. Farkas, Cézar Yasbeck, Estanislau Szakowski, Abrão Berman.Com todo esse movimento, começaram, finalmente, a cair as barreiras que se opunham à fotografia artística; os críticos de arte passaram a olhá-la com maior atenção; os museus e as galerias de arte principiaram a se abrir para ela.
Em dezembro de 1950, o Bandeirante promoveu a 1º Convenção Nacional de Arte Fotográfica, reunindo delegações de todos os foto-clubes então existentes. Presidiu-a o veterano João Nogueira Borges, Presidente – Perpétuo do Foto Clube Brasileiro. Dentre outras inúmeras resoluções destinadas à maior divulgação e aperfeiçoamento da arte fotográfica, dessa convenção resultou a fundação da Confederação Brasileira de Fotografia e Cinema, que passou a representar o Brasil na Federation Internationale de l’Art Photographique – FIAP.
Pouco antes, pela lei Estadual nº 839, de 14/111950, a Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo declarou o Foto Cine Clube Bandeirante “Entidade de Utilidade Pública”.
Destacados artistas-fotógrafos e dirigentes de foto clubes estrangeiros que a visitaram, entre os quais o Dr. Maurice Van de Wyer, fundador e Presidente de Honra da Federacion Internationale de l’Art Photographique, a consideraram-na uma das melhores e mais bem aparelhadas do mundo.
Graças à visão inovadora de seu diretor, Pietro Maria Bardi, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) se firmou durante esse processo como o principal espaço de valorização e de ensino sistemático da fotografia.Dois profissionais do Foto Cine Clube Bandeirante, tornam-se os primeiros a realizar exposições individuais de fotografia num museu brasileiro de arte e foram expostos os trabalhos de Thomas Farkas (1948) e de Geraldo de Barros (1950). Nesse período, ambos foram os responsáveis pela implantação do laboratório fotográfico do museu, também pelo programa de cursos de fotografia, que contribuíram na formação de diversos profissionais nos anos seguintes.

2 comentários:

Catharina disse...

Oi Nilza!
Sou neta do Dr. Ludovico Mungioli, médico e fotógrafo. Fiquei feliz por conhecer o trabalho de meu avô! Adorei o seu blog! Sucesso e felicidades!

Anônimo disse...

Eu sou neto de Lourival Bastos Cordeiro(Photo-Dominadora). Gostei de visitar esse passado. Abs. Marcelo F.L.Cordeiro