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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Mulheres









Julia Margaret Cameron
http://en.wikipedia.org/wiki/Julia_Margaret_Cameron


"A unidade tradicional de um livro de fotos de mulheres reside em algum ideal de essência feminina: mulheres que exibem, alegremente (e discretamente, observação minha), seus encantos sexuais, mulheres que se ocultam por trás de uma aparência de emotividade ou de afetação.
Retratos de mulheres representam sua beleza: retratos de homens, o seu “caráter”. Beleza (esfera das mulheres) era lisa; caráter (a esfera dos homens) era áspero. Feminino era complacente, manso, ou choroso; másculo era poderoso, incisivo. Homens não pareciam melancólicos. Mulheres, igualmente, não pareciam poderosas.
(...) Julia Margaret Cameron (fotografou) mulheres (...) para personificar os ideais de feminilidade retirados da literatura e da mitologia: a vulnerabilidade e o páthos de Ofélia, a ternura da Madona com o seu bebê. (...) O que habilitava as mulheres como modelos era precisamente a sua beleza, como a fama e as realizações habilitavam os homens. A beleza das mulheres as tornava temas ideais (...).
Sempre houve vários tipos de beleza: beleza imperial, beleza voluptuosa, beleza que exprime os traços de caráter que adaptava a mulher aos limites da domesticidade elegante – docilidade, maleabilidade, serenidade. Beleza não era apenas graciosidade de traços e de expressão, um ideal estético. Também falava ao olho a respeito das virtudes tidas como essenciais nas mulheres.
Para uma mulher, ser inteligente não era o essencial, nem mesmo adequado. A rigor, era considerado desqualificante, e é possível que estivesse marcado na sua aparência. (...) A contradição na ordem dos estereótipos sexuais pode parecer irreal para um habitante bem adaptado de uma era em que a ação, o empreendimento, a criatividade artística e a inovação intelectual são entendidos como ordens masculinas e fraternais. Durante muito tempo, a beleza de uma mulher pareceu incompatível com a inteligência e com a firmeza, ou pelo menos isso parecia uma combinação estranha. (...) Na vida real, ainda é comum tratar com certa má vontade uma mulher que tenha beleza e também brilho intelectual –  jamais se diria haver algo estranho ou intimidador ou ruim num homem que tivesse a mesma sorte – como se a beleza, o supremo propiciador do encanto feminino, devesse por uma questão de justiça barrar outros tipos de excelência.
(...)A beleza  – como foi fotografada na tradição dominante que prevaleceu até um tempo recente – toldou a sexualidade das mulheres. E, mesmo em fotos declaradamente eróticas, o corpo devia estar contando uma história e o rosto, outra. (...) pois são muito arraigadas reações que confirmam o desdém masculino em relação às mulheres sob o disfarce de uma admiração devassa. A libidinosidade das mulheres está sempre sendo reprimida ou é usada contra elas. (...)
A identificação das mulheres com a beleza foi um modo de imobilizar as mulheres. Enquanto o caráter evolui, revela, a beleza é estática, uma máscara, um magneto para projeção. (...) A identificação da beleza como a condição ideal de uma mulher está mais forte do que nunca, embora o imensamente complexo sistema de moda e de fotografia hoje preconize normas de beleza muito menos provincianas, mais diversificadas, e favoreça antes maneiras mais atrevidas do que recatadas de encarar a câmera. (...)
Idéias de beleza agora são menos imobilizadoras . Mas a beleza em si é um ideal de aparência estável e imutável, um empenho de afugentar ou de disfarçar as marcas do tempo.As normas de atratividade sexual para as mulheres são um índice de sua vulnerabilidade. Um homem envelhece com seus plenos poderes. Uma mulher envelhece para não ser mais desejada.
Jovem para sempre, bonita para sempre, sensual para sempre – a beleza é ainda uma construção, uma transformação, um baile de máscaras. (...)
Uma vez que ser feminina é ter atributos que sejam o oposto ou a negação, de atributos masculinos ideais, por muito tempo foi difícil elaborar a atratividade da mulher forte de outra forma que não sob o disfarce alegórico ou mítico. (...)
Claro, o que mais contribuiu para mudar os estereótipos de frivolidade e de incapacidade que afetavam as mulheres, não foram os esforços dos diversos feminismos, por mais que tenham sido indispensáveis. É a nova realidade econômica que obriga a maioria das mulheres (...) a trabalhar fora de casa. (...)
Qualquer mulher de talento se torna mais aceitável se pode ser vista como alguém que persegue suas ambições, exercita sua competência, de maneira feminina (com astúcia, sem confrontos). “Sem ser uma feminista agressiva, a senhora X conseguiu...”, começa um elogio tranqüilizador para uma mulher num cargo de responsabilidades executivas. Mulheres serem iguais a homens (a idéia nova) continua a ir ao encontro do antigo pressuposto de inferioridade e de subserviência feminina: é normal para uma mulher estar numa relação essencialmente dependente ou de apoio auto-sacrificante com pelo menos um homem. (...)
Mulheres de talento, exceto as profissionais de representação no teatro e no cinema, continuam a ser vistas como uma anomalia".

SONTAG, Susan. Uma foto não é uma opinião. Ou é? in Questão de ênfase. São Paulo: Companhia das Letras. 2001.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

São Paulo da garoa

Ladeira do Carmo (atual Avenida Rangel Pestana), 1862
Várzea do Tamanduateí (1862)
Rio Tamanduateí inundado, no fundo. (1862)



Rua do Carmo, 1862

Academia de Direito de São Paulo (atual largo de São Francisco), 1862
Rua da Imperatriz (atual 15 de Novembro), 1862
Vista da Ordem Terceira (Largo São Francisco), 1862
Ladeira do Palácio [Rua João Alfredo - atual Ladeira General Carneiro] , 1862 


Rua Direita, 1862, São Paulo
Militão Augusto de Azevedo

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Amazônia de Albert Frisch

1865


Bolivianos (1865)

Floresta 1865

Aldeia de índios aculturados Pacé (1865)
Pouco se sabe a respeito de Albert Frisch. Ativo no Brasil durante a década de 1860, fotografou na região do Alto Amazonas em torno de 1865, quando lá esteve em companhia do engenheiro, fotógrafo e desenhista Franz Keller-Leuzinger. Foi o primeiro a registrar aspectos da paisagem, da fauna e da flora locais, fotografando ainda pela primeira vez os índios brasileiros e os barqueiros de origem boliviana que atuavam como comerciantes itinerantes nos rios da região. Retratou os Umauás com suas armas e paramentos típicos; registrou aspectos das malocas originais, dos ranchos de pesca ao pirarucu e das habitações híbridas dos Tapuias (índios destribalizados sediados nas cercanias de Manaus). Essa documentação obteve menção honrosa na Exposição Universal de Paris (França) em 1867, e foi veiculada através da Casa Leuzinger, do Rio de Janeiro (RJ), propriedade do sogro de Franz Keller-Leuzinger, George Leuzinger, quem possivelmente deve tê-la encomendado a Frisch. 
As imagens acima estão expostas no MAM-RJ